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Monday, June 4, 2012

Qual o limite entre normal e doentio! Depressão e transtorno bipolar, quando é a hora de tratar?

Qual o limite entre normal e doentio!

Depressão e transtorno bipolar, quando é a hora de tratar? Tristeza não é depressão.

Um debate acirrado tem sido travado entre filósofos, sociógolos e os “psis” (psiquiatras, psicólogos, psicopedagogos, psicanalistas, psicoterapeutas etc) sobre os limites do que se pode considerar “normal” e que comportamento passa a ser considerado “anormal”, “diferente”, “exagerado”, “descontrolado” ou “doentio”.

Uma pressão subliminar com prováveis interesses financeiros tende a forçar uma expansão do que se deve considerar “doentio” para que seja “tratado” com remédios. A “pílula da felicidade” já rendeu e continua rendendo fortunas. Publicações científicas mal interpretadas questionam a eficácia destas medicações, pois não parecem superiores ao chamado “placebo” (comprimido sem o princípio ativo).

 No entanto, olhos mais sagazes percebem que as medicações são melhores que o placebo para depressões mais graves (que estariam no nível “doentio”) e mais parecidas com o placebo nas depressões leves (mais próximas do que chamaríamos tristeza “normal”). Ninguém sabe realmente o limiar entre normal e o doentio.

Provavelmente existem casos que são “limítrofes” e vão ficar sem uma resposta clara sobre o que é melhor fazer para eles. As classificações existem para facilitar o entendimento do que está acontecendo. Elas oferecem uma base de comparação com quadros semelhantes que ocorreram com outras pessoas e como elas evoluíram.

Ajudam a decidir sobre utilizar diferentes abordagens terapêuticas, desde nenhuma, até uma psicoterapia (tratamento através do diálogo), chegando por vezes às medicações ou outras intervenções mais invasivas. O importante é ter claro que as classificações são sempre arbitrárias e tendem à generalização. Os casos individuais vão ser sempre únicos e irrepetíveis.

Tomemos, por exemplo, o transtorno bipolar. Há uma tendência atual a chamar todas as pessoas que têm variações no humor de bipolares. Há uns 40 anos atrás, poucos dos bipolares atuais se encaixariam no que se chamava então “psicose maníaco-depressiva”. Era necessário que houvesse variações mais intensas entre depressão e mania (exaltação exagerada e descontrolada). Existe a tristeza. Não é o mesmo que o transtorno que chamamos de depressão. Tristeza é normal. Todos têm. Quem nunca fica triste, provavelmente tem algum problema sério. Reagir à tristeza é parte da vida e nos faz amadurecer.

Por outro lado, tristeza é um dos sintomas da depressão. Mas existem outros, como perda do apetite, perda da iniciativa, perda do interesse sexual, incapacidade para trabalhar, desejo de morrer, etc. Para que seja depressão é necessário que haja mais do que somente a tristeza e esta tem que ser prolongada o suficiente para que se conclua que a pessoa não consegue reagir sozinha. Como disse antes, muitas vezes é difícil saber o ponto de inflexão. Para isso servem os profissionais de saúde, neste caso os psicólogos e os psiquiatras. Os primeiros são mais especializados em abordar as questões através do diálogo e os segundos são médicos que utilizam além do diálogo, outros tratamentos como as medicações.

 Importante ter claro que depressão não é falta de caráter, nem falta de religiosidade. É uma doença que pode atingir qualquer um. Ela não respeita idade, nem sexo, nem religião, nem nada. Ninguém está livre, apesar de alguns terem uma tendência familiar mais intensa. Existe a alegria. Também é parte integrante de uma vida normal. Quem nunca fica alegre tem algo de errado.

 A vida consiste em fases mais alegres e fases mais tristes, intercaladas por períodos sem muita polarização. Fazendo um paralelo com o que foi dito sobre a depressão, existe uma alegria exagerada e descontrolada a que chamamos de hipomania e que pode chegar a um descontrole intenso, com perda da noção da realizade a que chamamos de “mania”. Pessoas que têm episódios de depressão intercalados com episódios de hipomania e mania são classificados como tendo o transtorno bipolar do humor. Medicações específicas para este transtorno exitem, como o lítio, por exemplo, e têm comprovada eficácia no tratamento e na prevenção destes episódios. O consultório de um(a) psicólogo(a) pode ajudar a enfrentar tristezas mais intensas que ainda não passaram a ser uma depressão, mas já saíram do ponto em que se resolve sozinho.

 Quando se conclui que o entendimento da situação e da causa não é suficiente para que a tristeza desapareça; quando esta passa a ser acompanhada de outros sintomas; ou quando se prolonga por muito tempo, um psiquiatra pode ajudar a avaliar a necessidade de se combinar um remédio. Quadros bipolares são, quase sempre, de responsabilidade dos psiquiatras e os psicólogos podem auxiliar os pacientes que sofrem deste transtorno a entenderem melhor o que acontece com eles e a lidar melhor com isso.



Dr. Moacyr Alexandro Rosa Diretor do IPAN
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Tuesday, February 7, 2012

  Surge a Convulsoterapia

Dr. Moacyr escreve sobre os primórdios da Convulsoterapia.  

Surge a Convulsoterapia

"Doutor Meduna!" chamou o paciente com um sorriso nos lábios. "Como você sabe o meu nome?",respondeu o médico. "Ah, eu ouvi tudo enquanto estava doente", respondeu ele. "Ouvi seus colegas dizendo que ia fazer algum tipo de experimento maluco. O senhor fez?" Meduna ficou silencioso pensando que "não podia mentir e era muito cedo para dizer a verdade." Era o ano de 1934.

O país era a Hungria. O referido paciente chamava-se Zoltan L., e havia estava em estupor catatônico por 4 anos. Não se movia, não falava, era alimentado por um tubo e precisava ser lavado e cuidado. Ele foi o primeiro na história da medicina moderna a se beneficiar do novo tratamento desenvolvido por Ladislas (ou Lazlo) Meduna, que consistia na injeção intramuscular de cânfora para induzir crises convulsivas. Poucas opções de tratamento estavam disponíveis nesta época.

 As idéias de Freud ainda estavam começando a se difundir e ser utilizadas para pacientes com neuroses. Os pacientes com psicoses (que incluíam a esquizofrenia) não tinham tratamento algum.
A chamada “sonoterapia” desenvolvida por Jacob Klaesi consistia em doses altas de barbitúricos que faziam com que os pacientes ficassem dormindo por um longo período de tempo e acalmavam agitações temporariamente, mas não tratavam os sintomas e as pessoas podiam ter pneumonias por ficar dias no leito e pela depressão da respiração que a medicação causava.
Outra opção era o coma insulínico, criado por Manfred Sakel, tratamento bastante desagradável que consistia em injetar insulina até que a pessoa entrasse em coma por hipoglicemia. Em seguida o coma era revertido com glicose oral. Apesar de ter algum efeito, era desagradável e a taxa de mortalidade alta. ​

Meduna era, acima de tudo um cientista. Depois de terminar a faculdade de medicina conseguiu um trabalho como neuropatologista. Era extremamente metódico. Passou 2 anos observando a glândula pineal em seu microscópio para descrever o seu desenvolvimento. Um dos seus maiores interesses era a “glia”, ou seja, as células que estão no sistema nervoso mas não são neurônios. Seu nome sugere o que se acreditava sobre a sua função: glia vem de “cola”.
Eram consideradas tecido de sustentação do sistema nervoso, com papel secundário ao dos neurônios. Atulamente a importância da glia cresce a cada dia. Sabe-se hoje, por exemplo,  que a glia produz a “mielina”, um tecido que envolve as extensões dos neurônios e garante uma condução nervosa rápida e eficaz.

Doenças devastadoras coma a esclerose múltipla consistem na perda da mielina. Estudando a glia de pacientes com esquizofrenia e de pacientes com epilepsia, Meduna viu um comportamento oposto entre as duas. Na esquizofrenia havia uma atrofia (diminuição) e na epilepsia havia um aumento (gliose) da glia. Seu raciocínio foi de uma oposição entre as doenças: “Talvez a convulsão possa tratar a esquizofrenia”. Depois de testar em animais, escolheu a cânfora como a melhor medicação para induzir uma convulsão e foi o que injetou em Zoltan.

A convulsoterapia revolucionou a psiquiatria. Pacientes como Zoltan, antes condenados a passar o resto de seus dias em um manicômio viam agora uma luz de esperança. A convulsoterapia elétrica, que ficou conhecida como eletrochoque, tão estigmatizada e incompreendida, foi apenas um desenvolvimento da idéia de Meduna.


Curiosamente, ao melhorar, Zoltan fugiu do hospital e foi para sua casa. Lá encontrou sua esposa com um amante. Depois de expulsar o amante e dar uma surra na esposa disse que ia voltar para o manicômio pois não queria viver num mundo louco em que estas coisas aconteciam... Pelo menos passou a ter uma escolha. Ao saber deste acontecimento, Meduna deu alta para Zoltan.

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Sunday, August 29, 2010

Como enfrentar a depressão pós parto

Como enfrentar a depressão pós parto

O momento mais esperado da vida de uma mulher pode ser prejudicado imensamente pela depressão pós parto, doença que assusta futuras mamães. A doença atinge de 15% a 20% das mulheres, um número bastante alto. Mamães que choram demasiadamente, resistem a cuidar do bebê, sofrem com tristeza e desespero podem estar com depressão pós parto. É importante identificar os sintomas e procurar ajuda o mais rápido possível, pelo bem da mãe e do bebê. Neste momento o apoio do pai da criança e familiares é fundamental.

Thursday, July 29, 2010

A cor da depressão é cinza - IPAN

A cor da depressão é cinza - IPAN

Recentemente Luiz Caversan, colunista do jornal de São Paulo, publicou em sua coluna um artigo sobre uma pesquisa muito interessante feita pela universidade alemã de Freiburg e publicado no último número da revista Biological Psychiatry, que considero uma das melhores do mundo. O estudo aponta o que muitos de nós já suspeitávamos, o mundo é mais cinza para quem sofre de depressão. Literalmente cinza! Pois no olhar de quem tem depressão o contraste entre preto e o branco diminui.

O estudo foi feito em 80 pessoas, 40 delas com depressão e outras sem a doença, os pesquisadores monitoraram a retina, responsável pela entrada de sinais luminosos que chegam ao cérebro para a definição de cores e luzes. Nos pacientes deprimidos, o contraste entre preto e branco é menor do que nos que não sofrem com a doença, além disso há uma relação entre o nível de contraste e a gravidade dos sintomas da doença.


Acho muito importante quando os veículos de comunicação divulgam temas tão importantes e pesquisas como esta, muito recente e relevante. Ajuda a desmistificar a depressão, tanto para quem sofre com ela quanto para os que convivem com pacientes. A depressão é uma doença, precisa ser reconhecida como tal e muito bem tratada. Ninguém merece ver a vida cinza, não é mesmo?


Abraços,

Dra Marina

Seeing gray when feeling blue? Depression can be measured in the eye of the diseased.

Abstract

BACKGROUND: Everyday language relates depressed mood to visual phenomena. Previous studies point to a reduced sensitivity of subjective contrast perception in depressed patients. One way to assess visual contrast perception in an objective way at the level of the retina is to measure the pattern electroretinogram (PERG). To find an objective correlate of reduced contrast perception, we measured the PERG in healthy control subjects and unmedicated and medicated patients with depression.

METHODS: Forty patients with a diagnosis of major depression (20 with and 20 without medication) and 40 matched healthy subjects were studied. Visual PERGs were recorded from both eyes.

RESULTS: Unmedicated and medicated depressed patients displayed dramatically lower retinal contrast gain. We found a strong and significant correlation between contrast gain and severity of depression. This marker distinguishes most patients on a single-case basis from control subjects. A receiver operating characteristic analysis revealed a specificity of 92.5% and a sensitivity of 77.5% for classifying the participants correctly.

CONCLUSIONS: Because PERG recording does not depend on subjective ratings, this marker may be an objective correlate of depression in human beings. If replicated, PERG may be helpful in further animal and human research in depression.


Bubl E, Kern E, Ebert D, Bach M, Tebartz van Elst L. Biol Psychiatry. 2010 Jul 15;68(2):205-8. Epub 2010 Mar 31.

Department of Psychiatry and Psychotherapy, Albert-Ludwigs-University of Freiburg, Freiburg, Germany.Copyright 2010 Society of Biological Psychiatry. Published by Elsevier Inc. All rights reserved.