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Monday, June 4, 2012

CFM reconhece a Estimulação Magnética Transcraniana como ato médico

Resolução do Conselho Federal de Medicina afirma que o uso da EMTr é exclusivo para médicos Nesta terça-feira (02/05), o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou resolução que afirma que o uso da Estimulação Magnética Transcraniana repetitiva (EMTr) deve ser feito exclusivamente por médicos.

Embora a literatura médica, e o registro na ANVISA, já autorizassem o médico a fazer uso clínico do método desde 2008, a publicação da resolução do CFM é um marco importante no reconhecimento do papel das técnicas de neuromodulação no tratamento da depressão e esquizofrenia.

Com a definição da resolução, fica claro que a aplicação das sessões de EMTr devem ser realizadas somente por médicos, alertando a população para clínicas que não seguem essa diretriz e realizam as aplicações com profissionais da saúde, como psicólogos ou fisioterapeutas.

No IPAN, desde seu nascimento, somente os médicos psiquiatras, especializados na técnica com cursos no Brasil e exterior, aplicam as sessões de EMTr nos pacientes. Mais de cem clínicas em todo o mundo já oferecem, com eficácia comprovada, o tratamento de Estimulação Magnética Transcraniana, muitas delas, focadas na melhora dos quadros de depressão e esquizofrenia.

A plenária do CFM aprovou o uso da EMTr, exclusivo para médicos, nas seguintes situações: Depressão Unipolar;
Depressão Bipolar;
Esquizofrenia (nas alucinações auditivas).
Planejamento de neurocirurgia.

Confira abaixo a notícia publicada na folha UOL sobre este assunto,

Equipe IPAN


O estigma da Eletroconvulsoterapia -ECT

Dr. Moacyr Rosa é entrevistado pelo jornal paranaense "Folha de Londrina".

A entrevista é sobre o estigma da Eletroconvulsoterapia - ECT.


(M.T.) Fonte: FOLHA DE LONDRINA, domingo, 11 de março de 2012, Reportagem 9.

Qual o limite entre normal e doentio! Depressão e transtorno bipolar, quando é a hora de tratar?

Qual o limite entre normal e doentio!

Depressão e transtorno bipolar, quando é a hora de tratar? Tristeza não é depressão.

Um debate acirrado tem sido travado entre filósofos, sociógolos e os “psis” (psiquiatras, psicólogos, psicopedagogos, psicanalistas, psicoterapeutas etc) sobre os limites do que se pode considerar “normal” e que comportamento passa a ser considerado “anormal”, “diferente”, “exagerado”, “descontrolado” ou “doentio”.

Uma pressão subliminar com prováveis interesses financeiros tende a forçar uma expansão do que se deve considerar “doentio” para que seja “tratado” com remédios. A “pílula da felicidade” já rendeu e continua rendendo fortunas. Publicações científicas mal interpretadas questionam a eficácia destas medicações, pois não parecem superiores ao chamado “placebo” (comprimido sem o princípio ativo).

 No entanto, olhos mais sagazes percebem que as medicações são melhores que o placebo para depressões mais graves (que estariam no nível “doentio”) e mais parecidas com o placebo nas depressões leves (mais próximas do que chamaríamos tristeza “normal”). Ninguém sabe realmente o limiar entre normal e o doentio.

Provavelmente existem casos que são “limítrofes” e vão ficar sem uma resposta clara sobre o que é melhor fazer para eles. As classificações existem para facilitar o entendimento do que está acontecendo. Elas oferecem uma base de comparação com quadros semelhantes que ocorreram com outras pessoas e como elas evoluíram.

Ajudam a decidir sobre utilizar diferentes abordagens terapêuticas, desde nenhuma, até uma psicoterapia (tratamento através do diálogo), chegando por vezes às medicações ou outras intervenções mais invasivas. O importante é ter claro que as classificações são sempre arbitrárias e tendem à generalização. Os casos individuais vão ser sempre únicos e irrepetíveis.

Tomemos, por exemplo, o transtorno bipolar. Há uma tendência atual a chamar todas as pessoas que têm variações no humor de bipolares. Há uns 40 anos atrás, poucos dos bipolares atuais se encaixariam no que se chamava então “psicose maníaco-depressiva”. Era necessário que houvesse variações mais intensas entre depressão e mania (exaltação exagerada e descontrolada). Existe a tristeza. Não é o mesmo que o transtorno que chamamos de depressão. Tristeza é normal. Todos têm. Quem nunca fica triste, provavelmente tem algum problema sério. Reagir à tristeza é parte da vida e nos faz amadurecer.

Por outro lado, tristeza é um dos sintomas da depressão. Mas existem outros, como perda do apetite, perda da iniciativa, perda do interesse sexual, incapacidade para trabalhar, desejo de morrer, etc. Para que seja depressão é necessário que haja mais do que somente a tristeza e esta tem que ser prolongada o suficiente para que se conclua que a pessoa não consegue reagir sozinha. Como disse antes, muitas vezes é difícil saber o ponto de inflexão. Para isso servem os profissionais de saúde, neste caso os psicólogos e os psiquiatras. Os primeiros são mais especializados em abordar as questões através do diálogo e os segundos são médicos que utilizam além do diálogo, outros tratamentos como as medicações.

 Importante ter claro que depressão não é falta de caráter, nem falta de religiosidade. É uma doença que pode atingir qualquer um. Ela não respeita idade, nem sexo, nem religião, nem nada. Ninguém está livre, apesar de alguns terem uma tendência familiar mais intensa. Existe a alegria. Também é parte integrante de uma vida normal. Quem nunca fica alegre tem algo de errado.

 A vida consiste em fases mais alegres e fases mais tristes, intercaladas por períodos sem muita polarização. Fazendo um paralelo com o que foi dito sobre a depressão, existe uma alegria exagerada e descontrolada a que chamamos de hipomania e que pode chegar a um descontrole intenso, com perda da noção da realizade a que chamamos de “mania”. Pessoas que têm episódios de depressão intercalados com episódios de hipomania e mania são classificados como tendo o transtorno bipolar do humor. Medicações específicas para este transtorno exitem, como o lítio, por exemplo, e têm comprovada eficácia no tratamento e na prevenção destes episódios. O consultório de um(a) psicólogo(a) pode ajudar a enfrentar tristezas mais intensas que ainda não passaram a ser uma depressão, mas já saíram do ponto em que se resolve sozinho.

 Quando se conclui que o entendimento da situação e da causa não é suficiente para que a tristeza desapareça; quando esta passa a ser acompanhada de outros sintomas; ou quando se prolonga por muito tempo, um psiquiatra pode ajudar a avaliar a necessidade de se combinar um remédio. Quadros bipolares são, quase sempre, de responsabilidade dos psiquiatras e os psicólogos podem auxiliar os pacientes que sofrem deste transtorno a entenderem melhor o que acontece com eles e a lidar melhor com isso.



Dr. Moacyr Alexandro Rosa Diretor do IPAN
Todos direitos reservados

Tuesday, February 7, 2012

  Surge a Convulsoterapia

Dr. Moacyr escreve sobre os primórdios da Convulsoterapia.  

Surge a Convulsoterapia

"Doutor Meduna!" chamou o paciente com um sorriso nos lábios. "Como você sabe o meu nome?",respondeu o médico. "Ah, eu ouvi tudo enquanto estava doente", respondeu ele. "Ouvi seus colegas dizendo que ia fazer algum tipo de experimento maluco. O senhor fez?" Meduna ficou silencioso pensando que "não podia mentir e era muito cedo para dizer a verdade." Era o ano de 1934.

O país era a Hungria. O referido paciente chamava-se Zoltan L., e havia estava em estupor catatônico por 4 anos. Não se movia, não falava, era alimentado por um tubo e precisava ser lavado e cuidado. Ele foi o primeiro na história da medicina moderna a se beneficiar do novo tratamento desenvolvido por Ladislas (ou Lazlo) Meduna, que consistia na injeção intramuscular de cânfora para induzir crises convulsivas. Poucas opções de tratamento estavam disponíveis nesta época.

 As idéias de Freud ainda estavam começando a se difundir e ser utilizadas para pacientes com neuroses. Os pacientes com psicoses (que incluíam a esquizofrenia) não tinham tratamento algum.
A chamada “sonoterapia” desenvolvida por Jacob Klaesi consistia em doses altas de barbitúricos que faziam com que os pacientes ficassem dormindo por um longo período de tempo e acalmavam agitações temporariamente, mas não tratavam os sintomas e as pessoas podiam ter pneumonias por ficar dias no leito e pela depressão da respiração que a medicação causava.
Outra opção era o coma insulínico, criado por Manfred Sakel, tratamento bastante desagradável que consistia em injetar insulina até que a pessoa entrasse em coma por hipoglicemia. Em seguida o coma era revertido com glicose oral. Apesar de ter algum efeito, era desagradável e a taxa de mortalidade alta. ​

Meduna era, acima de tudo um cientista. Depois de terminar a faculdade de medicina conseguiu um trabalho como neuropatologista. Era extremamente metódico. Passou 2 anos observando a glândula pineal em seu microscópio para descrever o seu desenvolvimento. Um dos seus maiores interesses era a “glia”, ou seja, as células que estão no sistema nervoso mas não são neurônios. Seu nome sugere o que se acreditava sobre a sua função: glia vem de “cola”.
Eram consideradas tecido de sustentação do sistema nervoso, com papel secundário ao dos neurônios. Atulamente a importância da glia cresce a cada dia. Sabe-se hoje, por exemplo,  que a glia produz a “mielina”, um tecido que envolve as extensões dos neurônios e garante uma condução nervosa rápida e eficaz.

Doenças devastadoras coma a esclerose múltipla consistem na perda da mielina. Estudando a glia de pacientes com esquizofrenia e de pacientes com epilepsia, Meduna viu um comportamento oposto entre as duas. Na esquizofrenia havia uma atrofia (diminuição) e na epilepsia havia um aumento (gliose) da glia. Seu raciocínio foi de uma oposição entre as doenças: “Talvez a convulsão possa tratar a esquizofrenia”. Depois de testar em animais, escolheu a cânfora como a melhor medicação para induzir uma convulsão e foi o que injetou em Zoltan.

A convulsoterapia revolucionou a psiquiatria. Pacientes como Zoltan, antes condenados a passar o resto de seus dias em um manicômio viam agora uma luz de esperança. A convulsoterapia elétrica, que ficou conhecida como eletrochoque, tão estigmatizada e incompreendida, foi apenas um desenvolvimento da idéia de Meduna.


Curiosamente, ao melhorar, Zoltan fugiu do hospital e foi para sua casa. Lá encontrou sua esposa com um amante. Depois de expulsar o amante e dar uma surra na esposa disse que ia voltar para o manicômio pois não queria viver num mundo louco em que estas coisas aconteciam... Pelo menos passou a ter uma escolha. Ao saber deste acontecimento, Meduna deu alta para Zoltan.

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Sunday, August 29, 2010

Como enfrentar a depressão pós parto

Como enfrentar a depressão pós parto

O momento mais esperado da vida de uma mulher pode ser prejudicado imensamente pela depressão pós parto, doença que assusta futuras mamães. A doença atinge de 15% a 20% das mulheres, um número bastante alto. Mamães que choram demasiadamente, resistem a cuidar do bebê, sofrem com tristeza e desespero podem estar com depressão pós parto. É importante identificar os sintomas e procurar ajuda o mais rápido possível, pelo bem da mãe e do bebê. Neste momento o apoio do pai da criança e familiares é fundamental.

Thursday, July 29, 2010

A cor da depressão é cinza - IPAN

A cor da depressão é cinza - IPAN

Recentemente Luiz Caversan, colunista do jornal de São Paulo, publicou em sua coluna um artigo sobre uma pesquisa muito interessante feita pela universidade alemã de Freiburg e publicado no último número da revista Biological Psychiatry, que considero uma das melhores do mundo. O estudo aponta o que muitos de nós já suspeitávamos, o mundo é mais cinza para quem sofre de depressão. Literalmente cinza! Pois no olhar de quem tem depressão o contraste entre preto e o branco diminui.

O estudo foi feito em 80 pessoas, 40 delas com depressão e outras sem a doença, os pesquisadores monitoraram a retina, responsável pela entrada de sinais luminosos que chegam ao cérebro para a definição de cores e luzes. Nos pacientes deprimidos, o contraste entre preto e branco é menor do que nos que não sofrem com a doença, além disso há uma relação entre o nível de contraste e a gravidade dos sintomas da doença.


Acho muito importante quando os veículos de comunicação divulgam temas tão importantes e pesquisas como esta, muito recente e relevante. Ajuda a desmistificar a depressão, tanto para quem sofre com ela quanto para os que convivem com pacientes. A depressão é uma doença, precisa ser reconhecida como tal e muito bem tratada. Ninguém merece ver a vida cinza, não é mesmo?


Abraços,

Dra Marina

Seeing gray when feeling blue? Depression can be measured in the eye of the diseased.

Abstract

BACKGROUND: Everyday language relates depressed mood to visual phenomena. Previous studies point to a reduced sensitivity of subjective contrast perception in depressed patients. One way to assess visual contrast perception in an objective way at the level of the retina is to measure the pattern electroretinogram (PERG). To find an objective correlate of reduced contrast perception, we measured the PERG in healthy control subjects and unmedicated and medicated patients with depression.

METHODS: Forty patients with a diagnosis of major depression (20 with and 20 without medication) and 40 matched healthy subjects were studied. Visual PERGs were recorded from both eyes.

RESULTS: Unmedicated and medicated depressed patients displayed dramatically lower retinal contrast gain. We found a strong and significant correlation between contrast gain and severity of depression. This marker distinguishes most patients on a single-case basis from control subjects. A receiver operating characteristic analysis revealed a specificity of 92.5% and a sensitivity of 77.5% for classifying the participants correctly.

CONCLUSIONS: Because PERG recording does not depend on subjective ratings, this marker may be an objective correlate of depression in human beings. If replicated, PERG may be helpful in further animal and human research in depression.


Bubl E, Kern E, Ebert D, Bach M, Tebartz van Elst L. Biol Psychiatry. 2010 Jul 15;68(2):205-8. Epub 2010 Mar 31.

Department of Psychiatry and Psychotherapy, Albert-Ludwigs-University of Freiburg, Freiburg, Germany.Copyright 2010 Society of Biological Psychiatry. Published by Elsevier Inc. All rights reserved.

Friday, July 23, 2010

A importância da família para pacientes com depressão - IPAN

A importância da família para pacientes com depressão - IPAN

De acordo com OMS (Organização Mundial de Saúde), até 2020 a depressão será a principal doença mais incapacitante em todo o mundo e a segunda causa de mortes mundiais por doença, após doenças coronárias. Os dados são muito preocupantes e refletem o alcance desta doença. Quem sofre com esta condição sabe o quanto é doloroso e incapacitante, mas o sofrimento não é exclusivo de quem tem depressão, é também dos familiares e das pessoas mais próximas, que sofrem por ver um ente querido doente e muitas vezes também sofrem por não saber como lidar com a doença. Mas qual é o papel da família? O que fazer para ajudar alguém com depressão?

A família é fundamental, é nela que o paciente vai encontrar apoio e conforto, reuni algumas dicas para familiares de pessoas com depressão. Vamos a elas:

1. A atitude mais importante é assegurar que a pessoa com depressão esteja em tratamento com um médico psiquiatra da confiança da família e do paciente. Procure ajuda, não espere a doença piorar.
2. Paciência é fundamental, muitas vezes a convivência com pessoa deprimida fica muito difícil, é preciso ser paciente.
3. Entenda que depressão é uma doença, a pessoa não está neste estado porque escolheu estar assim. Por isso o tratamento com médico psiquiatra é tão importante.
4. Saiba ouvir, por mais cansativo que seja, é importante dar atenção à pessoa deprimida, mostre a ela que você entende que ela passa por um momento difícil e destaque a importância de cumprir o tratamento conforme as orientações médicas.
5. Respeite. É importante saber respeitar o momento do paciente, claro que você pode incentivar a pessoa a fazer alguma atividade, mas caso ela recuse, respeite este momento. O que parece muito simples para uma pessoa saudável pode ser insuportável para quem está deprimido.
6. Acompanhe o tratamento, esteja sempre em contato com o médico, avise-o se perceber mudanças bruscas. Verifique se a pessoa está seguindo o tratamento.
7. Informe-se sobre a doença, leia bastante: sobre os tratamentos, livros, depoimentos de quem já passou por esta situação.
8. Em momentos muito difíceis, em que você está esgotado e não sabe mais o que falar, ofereça seu carinho, um abraço pode ajudar.
9. Não esqueça de você. Cuide-se, tenha um tempo só para você e faça isso sem culpa


Saturday, June 19, 2010

Estimulação Magnética para Depressão


Estimulação Magnética para Depressão

Um dos transtornos mentais que tem se beneficiado mais de avanços diagnósticos e terapêuticos, a depressão está incorporando técnicas novas como a estimulação magnética transcraniana, já estudada em grandes centros médicos, especialmente norte-americanos.

A evolução no diagnóstico e no tratamento dos transtornos depressivos foi marcante nos últimos anos. Desde os anos 50 novos medicamentos foram desenvolvidos e trazem um inegável benefício para milhares de pessoas que sofrem do transtorno em todo o mundo. Algumas limitações das medicações, contudo, especialmente o fato de alguns pacientes não tolerarem efeitos colaterais e uma porcentagem de pacientes simplesmente não melhorar, levaram os pesquisadores a aprimorar técnicas antigas, como a eletroconvulsoterapia e a estudar novas técnicas, como a estimulação magnética transcraniana. Depois deste acontecimento, passou a ser possível estimular o cérebro sem necessidade de uma craniotomia e sem a necessidade de cargas elétricas altas, pois o campo magnético é capaz de passar pelo crânio como se este não existisse, sem alteração ou deflecção.
A técnica passou a ser utilizada para estudos neurofisiológicos das vias motoras, incluindo transtornos neurológicos como esclerose múltipla e doença de Parkinson, entre outros (Barker, 1991).
A utilização terapêutica surgiu, como acontece frequentemente na medicina, de forma fortuita. Alguns estudos em pacientes com Parkinson (que sabidamente têm uma maior prevalência de depressão) notaram uma melhora do humor após as estimulações. Surgiram relatos de caso e isso levou alguns estudiosos (principalmente o professor George, em Charlestone, na Carolina do Sul e o professor Pascual-Leone, em Boston, Massachussets) a realizar as primeiras avaliações controladas dos efeitos da estimulação magnética transcraniana em transtornos depressivos (George and Wassermann, 1994; Pascual-Leone, 1994).


Evolução da técnica

Algumas mudanças técnicas foram realizadas. Foi desenvolvida uma bobina dupla (conhecida também como em forma de borboleta ou em forma de 8, em contraste com a bobina circular até então utilizada). Esta tem dois aneis de fios que fazem uma intersecção, onde se consegue focalizar melhor a área a ser estimulada. Outra modificação foi o surgimento de aparelhos que forneciam pulsos de repetição (em contraste com os iniciais que forneciam pulsos únicos). Com isso, séries de estímulos, com diferentes freqüências, podiam ser realizadas e este tipo de tratamento passou a ser chamado estimulação magnética transcraniana de repetição.


Segurança e efeitos colaterais

O tratamento é extremamente seguro e geralmente muito bem tolerado pelos pacientes. Os efeitos colaterais mais comuns são cefaléia depois das aplicações e desconforto na região da aplicação durante o tratamento. O maior risco é a possibilidade da indução de uma crise convulsiva. Foram relatados pouquíssimos casos no mundo (um total de 9 publicados até o momento), sendo que nenhum deles deixou qualquer tipo de sequela ou levou a alterações a longo prazo. Apesar de ser um acontecimento extremamente raro, guias com limites de segurança foram publicados, com combinações máximas permitidas para diferentes frequências utilizadas, reduzindo a zero a incidência de convulsões, quando os limites são respeitados.


A Técnica

Diferentes combinações de parâmetros foram testadas e diferentes regiões cerebrais foram estimuladas. Os melhores resultados foram obtidos, até o presente, com estimulação do córtex pré-frontal dorso-lateral, uma parte do córtex cerebral que corresponde às regiões 9 e 46 de Broadmann. Um importante achado foi o de diferentes efeitos, de acordo com o lado do cérebro estimulado e a frequência utilizada.

Melhores efeitos antidepressivos foram relatados com frequências altas (maiores do que 1 Hz; usualmente 5, 10, 15 ou 20 Hz) no lado esquerdo, e com frequências baixas (iguais ou menores do que 1 Hz) no lado direito. Uma possível explicação para isso seria a teoria do desequilíbiro inter-hemisféricos na depressão, com uma hipoativação do lado esquerdo e uma hiperativação proporcional do lado direito.
Frequências altas tendem a ter efeitos excitatórios no tecido cerebral, enquanto que frequências baixas tendem a ter um efeito inibitório.

Durante a sessão, o paciente fica sentado confortavelmente em uma poltrona ou divã, e fica desperto durante todo o tempo. A intensidade da estimulação é definida de forma individual, de acordo com a excitabilidade cerebral de cada paciente. O meio disponível para avaliar esta excitabilidade é conhecido como “limiar motor”. A mensuração deste consiste na ampliação de estímulos simples na região do córtex motor do lado que se deseja estimular.

Com isso, são observadas contrações contralaterais do músculo desejado (o mais utilizado é o abdutor curto do polegar), que podem ser registradas em um eletromiógrafo ou somente observadas a olho nu (Pridmore et al, 1998).
O limiar motor é normalmente considerado a intensidade mínima para que haja contração do músculo em 50% das estimulações. Este valor será utilizado para o cálculo da intensidade da estimulação ao longo do tratamento. Geralmente é utilizado de 100 a 120% do limiar motor.


Curso do tratamento

No momento atual, o tratamento consiste em sessões diárias que duram de 20 a 30 minutos cada, por um total de 2 a 4 semanas, excetuando-se fins de semana.
O número total de sessões é decidido de acordo com a resposta clínica. Não há regra geral com relação às medicações concomitantes. Em geral, inibidores do sistema nervoso central, como benzodiazepínicos, vão provocar um aumento do limiar motor, com necessidade de estimulação mais intensa. Medicações antidepressivas podem ser utilizadas conforme a necessidade e a indicação, havendo relatos de um sinergismo entre ambos (Rumi et al, 2005).


Eficácia

Como acontece com muitos tratamentos, alcançar a eficácia encontrada nos estudos vai depender de uma série de fatores. São exemplos os critérios diagnósticos utilizados, o grau de refratariedade e faixa etária da população estudada, além de diferentes aspectos técnicos (combinações de parâmetros ou tipo de placebo utilizado, por exemplo). A qualidade dos estudos também é um fator a ser levado em consideração.

Foram publicadas algumas revisões e metanálises (Burt et al, 2002; Couturier, 2005; Herrmann e Ebmeier, 2006; Holtzheimer et al, 2001; Martin et al, 2003; McNamara et al, 2001), todas demonstrando um efeito maior do que o tratamento controle (estimulação simulada). De forma geral, pode-se dizer que a estimulação magnética para o tratamento da depressão tem uma taxa de eficácia semelhante às medicações, ou seja, em torno de 60 a 70%.


Situação atual e perspectivas

Diferentes países têm modos diversos de regulamentar a prática médica e a utilização de aparelhagem para o tratamento de doenças.
Países que já utilizam a estimulação magnética regularmente incluem o Canadá, Israel e Austrália, entre outros. No Brasil existe, no momento, apenas um aparelho estimulador magnético com registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), realizado no ano de 2007. No ano de 2008, a técnica, com um aparelho específico, foi aprovada para utilização clínica no tratamento da depressão pelo Food and Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos.

Depressão é uma síndrome complexa com uma fisiopatologia ainda desconhecida. Os tratamentos existentes, incluindo medicações, eletroconvulsoterapia e, agora, a estimulação magnética transcraniana, têm a finalidade principal de aliviar o sofrimento dos pacientes, mas também abrem caminho para uma maior compreensão do cérebro, tanto normal como patológico. O futuro é bastante promissor. O aperfeiçoamento de técnicas de convulsoterapia (e.g., magnetoconvulsoterapia, estimulação elétrica focal) e da própria estimulação magnética está em curso, bem como o estudo de novas técnicas experimentais, como a estimulação do nervo vago e a estimulação cerebral profunda. Juntas, estas técnicas estão se somando àquelas disponíveis e abrindo o horizonte de médicos e pacientes para um futuro mais saudável.

Dra. Marina Odebrecht Rosa, CRM: 107447 – SP | RQE: 47901. Dr. Moacyr Alexandro Rosa, diretor técnico, CRM: 69816 – SP | RQE: 47876. IPAN – Instituto de Psiquiatria Avançada e Neuromodulação.