Tuesday, December 4, 2012

'Eu me achava a Mulher Maravilha', diz mulher com transtorno bipolar

04/12/2012-05h03

'Eu me achava a Mulher Maravilha', diz mulher com transtorno bipolar

JULIANA VINES
DE SÃO PAULO

"Sempre fui diferente. Na escola fazia coisas demais, era brilhante demais e, de repente, ficava triste. Passei parte da vida tentando entender por que tinha os sentimentos tão violentos.
Transtorno mental que mais causa suicídios, bipolaridade lesa o cérebro
'Internado, tive a convicção de que era o Rambo', diz homem bipolar
Agente da CIA bipolar é atração na série de TV "Homeland"
Perto dos 40 anos, procurei uma psicóloga. Achava que era alcoólatra. Sempre bebi bastante. A bebida tinha se tornado indispensável para mim, a agonia era tanta que só bebendo melhorava.
A psicóloga foi clara: 'Você de alcoólatra não tem nada'. Pediu que eu fosse a um psiquiatra. Depois de relutar, fui e veio o diagnóstico de transtorno bipolar, aos 44.
Ainda me achava 'Mulher Maravilha'. Hoje sei que tinha crises de euforia. É convidativo ser bipolar na euforia. Mas é uma agitação falsa, você logo se dispersa ou se cansa.
Avener Prado/Folhapress
Cristina Oliveira, 63 anos, criadora do projeto "Estórias Diferentes"
Cristina Oliveira, 63 anos, criadora do projeto "Estórias Diferentes"
Achava que ninguém era mais competente do que eu. Meu pensamento era em alta voltagem. Se uma pessoa falasse devagar, já me irritava. Enquanto eu conversava, fazia na cabeça a agenda do dia.
O médico me passava remédios, mas eu não tomava. Pensava: 'Por que vou me tratar se sou o máximo?'.
Foi um desastre, porque aí tive uma crise de depressão grave. Era empresária. Um dia, travei dentro do carro. Tiveram que me tirar de lá, me levaram para casa e eu levei dois anos para sair de novo.
Só então aceitei o tratamento. Demorou até acertar a medicação. Não cheguei a ser internada, mas não podia ficar sozinha. Meu pensamento recorrente era melhorar para poder me matar.
Depois de dois anos, me estabilizei e voltei a trabalhar. No final, não consegui. Tive de fechar a agência de eventos. Minha autoestima ficou no pé, mas eu não segurava a tensão de ser empresária.
Foi quando conheci a Abrata [associação de apoio a bipolares]. Fui forçada a ir pela médica e quando cheguei me senti em casa. Ali tinha gente como eu. A gente se identifica com os detalhes. Quando a dosagem de medicação está alta, a gente treme e derruba o café. Lá não sentia vergonha de derrubar café.
Fui voluntária por dez anos lá. Hoje trabalho em um projeto meu, para crianças com transtornos de humor. Ser produtiva de novo é ótimo.
Tive várias crises nos últimos 20 anos. Às vezes acordo triste e depois fico irritada. Sempre me controlo. Tenho faróis internos. Quando está no amarelo já fico atenta.
Sei o que me faz mal. Evito multidões, não saio à noite, não dirijo. Eu engano bem. Isso tem um custo, não é fácil, mas com toda doença é assim, tem que aprender a lidar."
Cristina Oliveira, 63, criadora do projeto "Estórias Diferentes", é casada e tem três filhos

No comments:

Post a Comment